Nesta semana, Mark Zuckerberg e a Meta anunciaram a decisão de abandonar a checagem de fatos por meio de Agências Independentes nas plataformas da empresa. Um tema que, à primeira vista, parece técnico e restrito às dinâmicas de redes sociais, na verdade, carrega implicações profundas e de longo alcance. Ao transferir a responsabilidade pela verificação de informações para um sistema de “notas de comunidade”, inspirado no modelo do X (antigo Twitter), a Meta nos coloca frente a uma questão urgente: o impacto desse movimento no cenário social, político e econômico global.
A Ilusão da Liberdade de Expressão Absoluta
A defesa inicial da Meta para justificar essa decisão recai sobre o argumento da liberdade de expressão. É uma retórica poderosa, mas que, analisada de perto, revela-se insustentável. Liberdade de expressão não é, e nunca foi, absoluta. Em qualquer sociedade, existem limites claros para proteger a convivência e evitar danos. Discursos de ódio, calúnias e a disseminação de informações falsas não são meros erros; são ferramentas que manipulam opiniões, distorcem a realidade e geram consequências concretas e devastadoras.
Sem checagem independente, as plataformas se tornam arenas de desinformação descontrolada. A “liberdade de expressão” não pode ser usada como escudo para justificar a ausência de responsabilidade. Garantir um ambiente digital saudável, onde o respeito e a verdade prevaleçam, é um dever ético e prático dessas plataformas, que detêm um poder quase hegemônico sobre a comunicação global.
A Responsabilidade das Big Techs e o Novo Colonialismo Digital
A decisão da Meta não é apenas um abandono de práticas responsáveis; é um sintoma de algo maior: o colonialismo digital. Vivemos em um mundo onde as big techs não apenas fornecem ferramentas de interação, mas também ditam como interagimos. São elas que definem os algoritmos, modulam os conteúdos que consumimos e, mais importante, coletam nossos dados para monetizar e influenciar essas interações.
Esse poder de moldar comportamentos, opiniões e decisões é um imperialismo menos visível, mas não menos perigoso. Governos e democracias ao redor do mundo já enfrentaram crises profundas por conta da disseminação de fake news. Basta lembrar das eleições presidenciais nos Estados Unidos em 2016, marcadas pela manipulação de dados e notícias falsas, ou do plebiscito do Brexit, onde informações distorcidas foram estrategicamente direcionadas a públicos-alvo. Em países em desenvolvimento, como o Brasil, vimos como notícias falsas polarizaram o debate público e até ameaçaram instituições democráticas.
Sem mecanismos confiáveis de checagem, as plataformas permitem que a desinformação seja disseminada em escala global, potencializando crises sociais, econômicas e políticas. E, ao se eximirem de responsabilidade, empresas como a Meta reforçam a ideia de que seus interesses comerciais são mais importantes do que o impacto humano de suas decisões.
O Papel dos Profissionais de Mídia
Para nós, profissionais de mídia, essa realidade exige reflexão e posicionamento. Trabalhamos diariamente com essas plataformas, investimos nelas e somos, muitas vezes, intermediários entre marcas, consumidores e informação. Mas é hora de pensarmos sobre o impacto das nossas ações dentro desse contexto.
Se as plataformas não assumem sua responsabilidade, cabe a nós, enquanto profissionais e cidadãos, sermos críticos, propor mudanças e exigir transparência. Precisamos pressionar por regulamentações que garantam a integridade da informação e priorizar estratégias que contribuam para um ambiente digital mais seguro e respeitoso. Acima de tudo, devemos questionar nosso papel em um sistema que, por vezes, se alimenta de polarizações e manipulações.
Conclusão
A decisão da Meta de abandonar a checagem independente de fatos é mais do que um movimento técnico; é um divisor de águas no debate sobre a responsabilidade das plataformas digitais. Não podemos nos dar ao luxo de sermos passivos diante dessa mudança. Como cidadãos, comunicadores e profissionais de mídia, devemos nos posicionar ativamente para garantir que o ambiente digital reflita valores éticos, democráticos e humanos.
O colonialismo digital é real e está acontecendo diante dos nossos olhos. Cabe a nós decidir como enfrentá-lo.

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